quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Inimigos Internos!

Inimigos eternos


O peso dos 80 anos de idade e os sintomas do mal de Parkinson não impediram o papa João Paulo II de enfrentar seu maior inimigo: Satanás, um anjo tão degradado que desafia Deus e tenta desviar a humanidade para o pecado e a infelicidade, segundo a tradição católica. Aconteceu na tarde de 6 de setembro. O pontífice recebeu na Santa Sé uma italiana de 19 anos que apresentava sinais de possessão demoníaca. Ela urrava palavras estranhas e sentia-se agredida por símbolos cristãos, como a cruz. A batalha de orações durou 30 minutos. João Paulo II abraçou-a e rezou para livrá-la da influência maligna. Não chegou a cumprir os longos rituais do exorcismo, que incluem a leitura de textos bíblicos e até um interrogatório ao diabo. Fez o que a Igreja chama de exorcismo menor. Concedeu a bênção, e a garota se acalmou. Horas depois, ela mergulhou em nova crise. Não estava curada.

A identidade da jovem foi mantida em segredo. Sabe-se que ela vive na região da Úmbria, no norte da Itália, e tem surtos desde os 12 anos. Médicos e psiquiatras tentaram, em vão, curá-la. Antes de recorrer ao papa, a garota foi atendida pelo padre Gabriele Amorth, exorcista-chefe de Roma (leia entrevista na pág. 132), mas não reagiu aos rituais. Então, levaram-na à Praça São Pedro, para assistir à audiência semanal de João Paulo II. Surpreendentemente, ele decidiu recebê-la. Foi a terceira vez, em 20 anos de pontificado, que o papa assumiu pessoalmente a missão de exorcizar.
Sabe-se pouco sobre o primeiro ritual, ocorrido no final dos anos 70. O segundo combate contra Satanás foi registrado nas memórias do cardeal francês Jacques Martin, morto há oito anos. No dia 4 de abril de 1982, João Paulo II cumpriu as regras canônicas do exorcismo com uma mulher italiana identificada como Francesca F. O cardeal deixou o seguinte relato: “Ela rolava pelo chão, berrando. O papa começou a rezar, pronunciando em vão vários exorcismos, e disse à mulher: ‘Amanhã rezarei uma missa por ti’. Repentinamente, Francesca voltou ao normal e pediu desculpas ao pontífice. Um ano depois, perfeitamente curada, compareceu com o marido a outra audiência com o papa”.

A participação de um pontífice em rituais de exorcismo é carregada de simbolismo. João Paulo II quis reafirmar que o mal existe e os católicos devem combatê-lo. Na Idade Média, quando a medicina era incapaz de diagnosticar doenças psiquiátricas, crises histéricas eram interpretadas como possessão demoníaca e os exorcistas convocados a resolver o problema. Os avanços da ciência moldaram um novo pensamento da Igreja, que relegou o exorcismo a uma atividade quase supersticiosa. O Concílio Vaticano II, em meados dos anos 60, estabeleceu que apenas sacerdotes autorizados pela hierarquia católica poderiam exorcizar. Tais permissões foram extraordinárias. Em 27 anos à frente da Arquidiocese de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns não deu chancela oficial a nenhum exorcismo. “Os casos de possessão são raríssimos”, diz o teólogo beneditino dom Estevão Bittencourt, da Arquidiocese do Rio de Janeiro. O padre jesuíta Oscar Quevedo, especialista em parapsicologia, é mais radical. “Exorcismo não existe”, diz. “Nunca vi um caso que não pudesse ser explicado pela psicologia e pela parapsicologia.”

A desconfiança não impediu que a tradição se mantivesse, de forma quase clandestina, em missas rezadas por padres que crêem em possessões. Na Igreja de Santana, no Centro do Rio, o pároco Nelson Rabelo, de 80 anos, realiza exorcismos que atraem 400 pessoas por semana. Ele pratica um ritual de bênçãos e orações que dura duas horas e meia. Depois de uma longa preleção sobre as armadilhas de Satanás, borrifa os fiéis com água benta. Alguns deles tremem, reviram os olhos e têm convulsões. “Foge daqui Satanás, inventor e mestre de todos os enganos. Retrocede diante de Cristo”, brada. Padre Nelson saboreou o episódio do exorcismo papal como uma vitória pessoal, em entrevista, na terça-feira passada, ao jornal Extra.

No dia seguinte, procurado por ÉPOCA, preferiu não dar declarações.“Fui repreendido por meus superiores por causa da entrevista”, disse. No ano passado, a Santa Sé lançou um manual de exorcismo para substituir o que vigorava desde 1614. O inferno passou a ser interpretado não como um lugar, mas um estado de espírito.

O demônio também deixou de ser comparado a figuras de animais, como o bode. Converteu-se num ente espiritual. Escrito em latim, o livro De Exorcismis et Supplicationibus Quibusdam recomenda que os supostos casos de possessão sejam submetidos a psiquiatras antes que se recorra a um padre-exorcista. No lançamento da obra, o Vaticano fez questão de alardear o que considera ser um desvio de comportamento entre o clero e os fiéis. “Há católicos que não foram educados de forma adequada para a fé e duvidam da existência do diabo”, disse o cardeal Jorge Arturo Medina Estévez, prefeito da Congregação para o Culto Divino. “O maligno está em toda parte: na crença de que o dinheiro traz felicidade e de que a liberdade individual pode sobrepor-se à vontade divina.”

A Igreja Católica perdeu fiéis no período em que relegou o exorcismo, enquanto as igrejas evangélicas pentecostais arrebanhavam multidões com rituais espetaculares. Neles, o diabo é supostamente escorraçado do corpo dos possuídos. “As religiões pentecostais atribuem ao diabo o desemprego, a doença, a traição”, diz o teólogo João Décio Passos, da PUC de São Paulo. Margarida Oliva, autora de O Diabo no Reino de Deus, acrescenta: “A consciência humana não evoluiu o bastante e precisa de um demônio para apaziguar culpas e evitar responsabilidades”. Não por acaso, a Renovação Carismática, braço pentecostal da Igreja Católica, reintroduziu nos cultos o temor a Satanás. Os padres carismáticos raramente praticam exorcismo, mas celebram missas para “cura e libertação”, que se propõem, entre outras coisas, a afastar o demônio.

Em Salvador, o padre capuchinho Marco Lázaro comanda às terças-feiras a Missa da Cura na Igreja da Piedade. Cerca de 1.300 pessoas comparecem. Em duas ocasiões, diz ter visto mulheres tomadas por forças do mal. “Uma senhora de 55 anos revirava os olhos”, relembra. “Rezei com toda a força e pedi a Jesus que a curasse.” Teve êxito. O padre Cleodon Amaral de Lima, de 34 anos, viveu experiência semelhante. “Há muitos casos de histeria, mas já atendi a possessões”, diz. Pároco da Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, é conhecido na área pela habilidade em identificar o capeta e libertar os fiéis. “Expulso o demônio em nome do Salvador”, diz padre Cleodon. “Não há diabo que resista a Jesus, o filho de Deus.”

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