domingo, 21 de maio de 2017

Como superar as dores e as consequências do adultério





O amor dos esposos é comparado, por São Paulo, ao amor “fiel, indissolúvel e fecundo” entre Cristo e a Igreja: ““Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”” (Mt 5,25). A quebra da fidelidade conjugal fere e contradiz a união de amor entre Cristo e a Igreja, porque cada casal que se une pelo sacramento do matrimônio sinaliza na terra a união de Deus com os homens, de Cristo com a Igreja.
O adultério é falta grave. Ao falar dele, o Catecismo da Igreja Católica (CIC) diz: ““Cristo condena o adultério mesmo de simples desejo” (cf. Mt 5,27-28). O sexto mandamento e o Novo Testamento proscrevem absolutamente o adultério (cf. Mt 5,32; 19,6; Mc 10,11-12; 1Cor 6,9-10). Os profetas denunciam sua gravidade. Vêem no adultério a figura do pecado de idolatria (Os 2,7; Jr 5,7; 13,27)” (CIC §2380).

Fere a instituição do casamento

E mais: “o adultério é uma injustiça. Quem o comete falta com seus compromissos e fere o sinal da Aliança, que é o vínculo matrimonial, lesa o direito do outro cônjuge e prejudica a instituição do casamento, violando o contrato que o fundamenta. Compromete o bem da geração humana e dos filhos que têm necessidade da união estável dos pais” (CIC §2381).
Aqui, a Igreja explica bem todo o perigo do adultério; ele fragiliza a aliança matrimonial e põe em risco a estabilidade do lar e a felicidade dos filhos. Por essa razão, o cristão deve lutar com todas as forças contra esse mal. Não se pode brincar com esse perigo, porque se pode nele perecer.
Infelizmente, hoje, há muitas forças tenebrosas que empurram as pessoas para o adultério, uma sexualidade cada vez mais acintosa e provocante, especialmente pela internet, televisão, filmes, revistas. Por outro lado, os problemas conjugais, as inseguranças e carências dos cônjuges, criam circunstâncias perigosas que, muitas vezes, empurram alguns para a falta do adultério.

O adultério não deve ser motivo de separação

Há o caso do adultério ocasional, cometido uma vez por fraqueza humana, falta de vigilância e oração; e há também aquele adultério repetido, assumido, consumado, que é muito mais grave e difícil de ser superado. Ambos, sem dúvida, caracterizam falta grave e jamais podem ser justificados. No entanto, o adultério não deve ser automaticamente um motivo de separação do casal. Não. Sempre é possível uma mudança de vida, o arrependimento, o pedido de perdão ao cônjuge ferido e a retomada da fidelidade. Especialmente o sacramento da confissão pode apagar toda culpa e lavar os corações da mancha do pecado. O casal cristão deve analisar, –com paciência e coragem,– essa recuperação e reconciliação pelo bem deles mesmos e pelo bem dos filhos.
O Código de Direito Canônico diz no Cânon 1152: ““Embora se recomende vivamente que o cônjuge, movido pela caridade cristã e pela solicitude do bem da família, não negue o perdão ao outro cônjuge adúltero e não interrompa a vida conjugal, se não tiver expressado ou tacitamente perdoado sua culpa, tem o direito de dissolver a convivência conjugal, a não ser que tenha consentido no adultério, tenha-lhe dado causa ou tenha também cometido adultério. Existe perdão tácito se o cônjuge inocente, depois de tomar conhecimento do adultério, continuou espontaneamente a viver com o outro cônjuge com afeto marital; presume-se o perdão, se tiver continuado a convivência por seis meses, sem interpor recurso à autoridade eclesiástica ou civil”.

Como vencer essa dor?

A Igreja deixa claro que prefere o perdão para o adúltero, evidentemente se este reconhecer a culpa e estiver arrependido. O cônjuge cristão deve lutar com todas as forças humanas e sobrenaturais da fé para superar essa difícil situação. Precisará unir-se profundamente a Deus e contar com a graça dos sacramentos, especialmente o da Eucaristia e da oração “sem cessar” (cf. 1Tes 5,16). Para Deus tudo é possível! Muitas vezes, um casal se une ainda com mais amor e maturidade após uma situação de adultério. De forma que este não deve ser a decretação do fim do casamento.
Nesse caso, o cônjuge cristão precisa lutar com tranquilidade e fé, sem deixar que o desespero e o desânimo tomem conta da situação. Nessa hora, é preciso rezar muito, dar tempo ao tempo, esperar com paciência e permanecer fiel a Deus e aos filhos. E também pedir a ajuda de pessoas maduras que possam fazer uma mediação entre os dois. De forma alguma, a parte traída deverá partir para um novo relacionamento, pois isso complica ainda mais a situação e pode impedir a saudável reconciliação do casal. Muitas vezes, um casal se reconcilia depois até de anos de separação. O tempo passa, os sofrimentos, às vezes, se abatem sobre as pessoas e muitas coisas mudam. Deus age quando rezamos.
Sobretudo, o cônjuge cristão ferido pelo adultério deve saber que está em paz com Deus e com sua consciência, enquanto o outro está no pecado e não pode viver em paz. Portanto, deve permanecer em sua missão de esposa fiel, servindo aos filhos com muita atenção e carinho para superar as dores da ausência do companheiro.

Por que houve a traição?

Essa é uma ocasião também para se refletir profundamente as possíveis causas que puderam ter provocado a situação de adultério. Por que o amor do casal arrefeceu? Por que o outro caiu no adultério? Faltou a atenção recíproca, faltou o carinho conjugal, faltou harmonia sexual? Enfim, as causas devem ser analisadas objetivamente para serem removidas, de forma a se possibilitar a reconciliação.
Evidentemente, todo casal deve se precaver para que um dos cônjuges não seja levado ao adultério. A prevenção sempre é a melhor terapia. Para isso, é preciso que o casal alimente a vida espiritual, a vida de oração e sacramental; pois está provado que esses casais normalmente vivem a fidelidade conjugal. Por outro lado, o carinho, a atenção constante com o outro e tudo o que alimenta o amor conjugal deve ser cultivado dia a dia. É muito difícil um casal se manter verdadeiramente fiel um ao outro se faltar para eles a vida espiritual, o cultivo do amor recíproco e um diálogo sempre aberto sobre todos os problemas.
O casal com dificuldades conjugais precisa procurar logo a ajuda de um orientador maduro e capaz de auxiliá-los. Tudo isso é possível e fundamental para o bem da família e do casal.
A felicidade da sociedade depende das famílias e dos casais; por isso, todo esforço é necessário para lutar contra o adultério.

domingo, 9 de abril de 2017

Semana Santa

«Aquele a quem eu beijar, é Esse. Prendei-O»(Mt.26,48).
            «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?»(Lc.22,48)
A Semana Santa é o período que vai do Domingo da Ramos na Paixão do Senhor até ao Sábado Santo, como preparação para a Festa da Páscoa.
            Quando a Religião Católica foi legalizada pelo Édito de Milão em 313, os baptizados que viviam em Jerusalém ou nas cercanias da cidade, começaram a celebrar publicamente o aniversário dos acontecimentos e dos lugares da paixão de Cristo identificados pela tradição, a que chamaram os "Lugares Santos".
            Faziam vigílias e procissões, e liam as escrituras referentes aos fatos da Paixão do Senhor, especialmente a leitura da Paixão.
            E muito do que hoje se sabe a respeito da antiga Semana Santa e da Páscoa, veio sobretudo através dos Peregrinos europeus que trouxeram essas práticas consigo e as repetiam todos os anos.
            Uma peregrina de Espanha chamada Egeria, foi em peregrinação a Jerusalém em 381-384 e, quando voltou, escreveu tudo o que viu num livro, e os cristãos observavam essas práticas todos os anos.
            Mais tarde a Igreja foi incorporando algumas dessas práticas na Liturgia da Semana Santa.

           
                               PAIXÃO DE CRISTO
           A Paixão de Cristo inclui todos os acontecimentos referentes aos seus sofrimentos, desde a Última Ceia até à Sua Morte, e que foram anunciados por Isaías desde 42,13 até 43,12, e depois narrados pelos Evangelistas :
            Mat. 26 e 27;  Mc. 14 e 15; Lc. 22 e 23;  Jo. 18 a 20.
            Todavia quando se fala na Paixão de Cristo refere-se muito especialmente à narração da Paixão feita pelos Evangelistas :
            Mat. 26,36 a 27,66, que se lê na Missa do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, Ciclo do Ano A.
            Mc. 14 e 15, que se lê na Missa do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, Ano B.
            Lc. 22 e 23 que se lê na Missa do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor Ano C.
            Jo. 18 a 20 que se lê na Missa de Sexta-Feira Santa.
            É evidente que, pela Sua Paixão, Cristo suportou muitos sofrimentos para nossa salvação, como : Degradação; Várias formas de sofrimento físico; Privação; Ultraje; Abandono e Morte.
            Mas também é verdade que todos estes sofrimentos constituíram uma plena aceitação como uma passagem da morte à vida, de uma aparente derrota a uma verdadeira vitória, da cruz para a glória.
            O Concílio Vaticano II na Sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia afirma :
            - Esta obra da redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus(...) realizou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão...(SC 5).(cf. SC 61).
            Foi pela Paixão de Cristo que nos veio a justificação que nos é concedida pelo Baptismo, como nos diz o Catecismo da Igreja Católica :
            1992. - A justificação foi-nos merecida pela Paixão de Cristo, que na Cruz Se ofereceu como hóstia viva, santa e agradável a Deus, e cujo Sangue se tornou instrumento de propiciação para os pecados de todos os homens. A justificação é concedida pelo Baptismo, sacramento da fé. Conforma-nos à justiça de Deus, que nos torna interiormente justos pelo poder da sua misericórdia. E tem por fim a glória de Deus e de Cristo, e o dom da vida eterna              
            MISSA CRISMAL
            Primitivamente era na manhã de Quinta-Feira Santa, mas presentemente, por razões práticas, noutro qualquer dia da Semana Santa, na Igreja Catedral o Bispo com a presença dos Párocos e com delegações de leigos das diversas Paróquias, num ritual solene, celebra a Missa Crismal para benzer os Óleos que se hão-de usar durante todo o ano :
            * O Óleo dos Catecúmenos, usado no Baptismo das crianças e no catecumenato dos adultos.
            * O Óleo do Crisma, usado no Baptismo e na Confirmação.
            * O Óleo dos enfermos, usado na administração da Unção dos Enfermos.
            É um rito próprio do Bispo, como sucessor dos Apóstolos e o primeiro servidor da Igreja local, em volta do qual se reúnem, para com ele celebrar a Eucaristia, os Sacerdotes dos diversos lugares e ministérios da Diocese, numa prova de unidade eclesial.
            Através dos Santos Óleos, por ele benzidos nesta Missa Crismal e pelos sacerdotes levados para todas as Paróquias, o Bispo "fundamento e unidade da sua Diocese" (LG 23), estará presente no Baptismo, na Confirmação e na Unção dos Enfermos.
            Unidos no Único Sacerdócio de Jesus Cristo, Bispos e Sacerdotes são, porém, simples instrumentos, "servos do Ministério".
            Quem, por intermédio deles, age na Igreja, é o Espírito de Jesus, o Espírito Santo, como o sublinha toda a Liturgia da Missa Crismal.
            Renovando, na Missa Crismal, o seu compromisso de serviço à comunidade dos crentes, os Sacerdotes reafirmam o seu desejo de fidelidade ao Espírito Santo, que receberam com a imposição das mãos.
            O Bispo deve ser considerado como sumo sacerdote do seu rebanho, de quem deriva e depende, de algum modo, a vida dos seus fiéis em Cristo.
            A Missa do Crisma, que o Bispo concelebra com os presbíteros das diversas regiões da Diocese, e durante a qual consagra o Santo Crisma e benze os outros Óleos, é considerada uma das principais manifestações da plenitude do sacerdócio do Bispo e sinal da íntima união dos presbíteros com ele.
            Com efeito, é com o Santo Crisma consagrado pelo Bispo que os recém-baptizados são ungidos e, depois, confirmados.
            Com o Óleo dos Catecúmenos são preparados e dispostos os Catecúmenos para o Baptismo.
            Finalmente, com o Óleo dos Enfermos, são aliviados os doentes nas suas enfermidades. (cf. Missal popular).
            No fim da Missa Crismal, ou em qualquer outra altura, os Párocos levam para as suas Paróquias, uma certa porção destes Óleos para a administração dos respetivos Sacramentos durante todo o ano, a começar na Vigília Pascal.


            TRÍDUO PASCAL
            Aos últimos três dias da Semana Santa, chama-se Tríduo Pascal, isto é, Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e Sábado santo.
            Originariamente, não havia a celebração da Semana Santa.
            A Páscoa era celebrada no contexto de um só dia : a Vigília Pascal que começava ao pôr do sol de Sábado e continuava até ao fim do primeiro dia da semana, o Domingo.
            No século V, o Mistério Pascal ficou fragmentado em várias peças, por influências de Jerusalém.
            O núcleo chamou-se "Tríduo Sagrado" : de Sexta-Feira até à manhã de Domingo, em memória da Morte, Sepultura e Ressurreição.
            Mais tarde foi acrescentada a Quinta-Feira porque os dias eram contados a partir da véspera de Sexta-Feira.
            Com o fim das perseguições aos Cristãos, o imperador cristão proibiu toda a espécie de entretenimento durante esta semana e daqui saiu a tradição de que todos os prisioneiros deviam ser perdoados.
            Os três dias de Quinta-Feira, Sexta-Feira e Sábado da Semana Santa foram considerados como dias santos.
            Desde então a Igreja celebra o Mistério das salvação, nas suas três fases (Paixão, Morte e Ressurreição), no decorrer de três dias, que constituem o ponto culminante do Ano Litúrgico.
            Este Tríduo Pascal começa com a Missa Vespertina de Quinta-Feira Santa, tem o seu momento mais alto na Vigília Pascal e termina com as Véspera do Domingo da Ressurreição.
            Deste modo, não podemos identificar a Páscoa apenas com o Domingo da Ressurreição.            
            Isso seria mutilar uma realidade extremamente rica e reduzir-lhe as dimensões.
            "O plano divino da Salvação em Cristo não pode fragmentar-se, mas deve ser considerado como um todo único".
            Compreende-se, portanto, a importância deste Tríduo Pascal, quer na liturgia, quer na vida da Igreja.
            Dele derivam todas as outras solenidades, que não são senão reflexos, ecos deste Acontecimento salvífico, de modo que o culto cristão é um culto pascal.
            Nele tem o seu centro de convergência e de irradiação a vida da Igreja, pois "o Mistério cristão culmina e compendia-se no Mistério Pascal, que dá cumprimento à História da Salvação e à missão de Israel, enquanto inaugura, com os tempos messiânicos, a existência histórica da Igreja".
            O Tríduo Pascal, pelo qual se aplica aos homens a perene eficácia do Mistério da Redenção, deve ser vivido plenamente.
            Nestes três dias, unidos ao Salvador, devemos percorrer o seu itinerário, tornando-nos solidários com Ele na Paixão e na Morte, para o sermos também na Ressurreição.
            Diz o Catecismo da Igreja Católica :
            1168. - Partindo do Tríduo Pascal, como da sua fonte de luz, o tempo novo da Ressurreição enche todo o ano litúrgico da sua claridade. Ininterruptamente, dum lado e doutro desta fonte, o ano é transformado pela Liturgia. É realmente "ano da graça do Senhor". A economia da salvação realiza-se no quadro do tempo; mas a partir da sua concretização na Páscoa de Jesus e da infusão do Espírito Santo, o fim da história é antecipado, pre-gustado, e o Reino de Deus entra no nosso tempo.
            Antes da Reforma da Liturgia, o tempo da Quaresma terminava com a Vigília pascal.           
            Paulo VI nas Normas Gerais do Calendário e Ano Litúrgico, a respeito da Quaresma, estabeleceu :
            -"A Quaresma começa com a Quarta-Feira de Cinzas e termina com a Missa de Quinta-Feira Santa”.(28).

Fonte: http://www.universocatolico.com.br/index.php?/semana-santa.html

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Os católicos e a intolerância religiosa

Uma reflexão genuinamente católica sobre “intolerância religiosa”, escrita por um bispo e membro da Academia Brasileira de Letras.

Neste ano de 2016, o Exame Nacional do Ensino Médio formulou como proposta de redação o tema "Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil". Embora ciente do viés notavelmente tendencioso com que o assunto foi apresentado, a pretensão de nossa equipe é contribuir sinceramente com esse debate, oferecendo uma reflexão genuinamente católica a esse respeito.
Para tanto, publicamos a seguir trecho de um precioso discurso de Dom Francisco de Aquino Corrêa. Para quem não o conhece, trata-se de um bispo brasileiro que governou a Arquidiocese de Cuiabá de 1921 a 1956 e que ocupou, no mesmo período, um honroso lugar de prestígio na Academia Brasileira de Letras.
Não obstante elevada a linguagem com que se pronuncia o purpurado, a mensagem que ele transmite não só é inteligível, como de grande utilidade para orientar a moderna discussão sobre "intolerância religiosa". Não deixem de apreciar:
Senhores! 

Aprendi com os velhos mestres escolásticos que um dos recursos mais frequentes nas justas cavalheirescas do espírito há de ser a distinção lógica dos termos: assim aconselhavam eles no final dum conhecido hexâmetro didático: distingue frequenter. Onde quer que se insinue a confusão, aí se impõe ela. E, não raro, nos dá, deveras, a sensação dum raio de sol em plena treva. Ora, um dos vocábulos mais confusos da linguagem polêmica é precisamente a intolerância. Tanto assim que podemos distingui-la, não em duas, mas em três espécies, que, para maior clareza ou efeito gráfico e mnemônico, designarei por três pês: intolerância de pessoas, de palavras e de pensamentos. 

Nada mais anticristão do que a intolerância de pessoas. Basta abrir os evangelhos: Jesus levou nesse terreno a tolerância a tal auge que escandalizou os fariseus, pois, afrontando-lhes embora a indignação e o desprezo, achegou-se aos publicanos e pecadores. E máxime em pritaneus acadêmicos, como o nosso, é que se ela impõe, como já fazia notar, com a costumada lepidez, o saudoso confrade Carlos de Laet: "Neste habitáculo das letras, escreveu ele, a tolerância de pessoas não é somente uma virtude, mas uma exigência impreterível, para a serenidade em nossos debates, mesmo naqueles que mais nos escandescem, isto é, os da questão ortográfica". 

Não é, portanto, essa, a intolerância, de que se possa acusar o catolicismo, porque ninguém menos católico, nem mais intolerável, do que um católico intolerante para com as pessoas. 

Em segundo lugar, vem a intolerância de palavras, compreendendo-se nesta expressão toda a intolerância no modo de expor ou defender a doutrina. E esta igualmente, longe de praticar, há de condená-la quem quer que se preze de verdadeiro católico. Mestre das controvérsias católicas, investido oficialmente nesse título pelo Papa reinante, é S. Francisco de Sales. E é ele próprio quem nos diz que o polemista, que se enfada, torna suspeita a sua causa. A luz da verdade, ensina ainda ele, não se dardeja aos olhos do adversário, com perigos de cegá-lo: faz-se-lhe alvorecer de mansinho. E tamanho era o seu cavalheirismo, que desejara tratar os contendores, não somente com luvas, mas luvas perfumadas. E aqui vem a propósito aquelas duas palavras com que os livros santos definem a ação da Providência no governo do mundo: fortiter e suaviter, as quais bem se podem aplicar ao floreio elegante da dialética, na mão dos paladinos da causa católica: firmeza na verdade, gentileza no defendê-la. Fortiter in re, suaviter in modo

Esta firmeza na verdade nos leva naturalmente a considerar a terceira classe de intolerância, que é a do pensamento. E esta, sim, meus Senhores, devo confessar-vos que o catolicismo não somente a professa, mas dela faz timbre nas armas heráldicas do seu apostolado, outra coisa não sendo ela, senão a intolerância do erro. E não há condescendências nem amizades que valham a justificar a adoção do erro, um só que seja. Já dizia Aristóteles que, com ser amigo e admirador de Platão, não deixava de o ser, e muito mais, da verdade: Amicus Plato, sed magis amica veritas

Muitos, todavia, nem com essa intolerância se conformam, e a razão se me antolha óbvia: é que não admitem a verdade integral dos dogmas do cristianismo. Diante destes, a situação dos católicos continua a ser aquela mesma de Jesus em presença de Pilatos: ante a convicção com que o Cristo falava da verdade, que viera revelar ao mundo, pergunta-lhe o procurador da Judéia, com um sorriso de humorismo, que bem se lhe adivinha nos lábios: "E que vem a ser a verdade?" Quid est veritas? (JoXVIII, 38). 

E, efetivamente, para os que vêem na doutrina católica, a par de algumas verdades, não poucas superstições e crendices, nada mais insuportável que a presunção com que a proclamamos e defendemos contra tudo que lhe repugne. Mas, por outro lado, se o católico, convencido como deve estar dessas verdades, a ponto de, no dizer de Pascal, deixar-se degolar por elas, não praticasse essa intolerância daria bem triste prova da sua convicção, ou, melhor, documentaria a sua incoerência. Tolerar ideias contraditórias é próprio só de espíritos que ainda não se firmaram na verdade. Há de se, pois, fazer justiça aos católicos, reconhecendo, ao menos, a coerência da sua atitude: verdade e erro não se toleram entre si, repelem-se: hurlent de se trouver ensemble

O que vos eu acabo de expor, não é meu, nem novo: acha-se já admiravelmente cristalizado, há 16 séculos, naquela fórmula clássica de Santo Agostinho, que assim reza: "Amai aos homens, destruí os erros, certos, mas não soberbos de possuir a verdade, e lutando, mas sem paixões, por ela!" Diligite homines, interficite errores: sine superbia de veritate praesumentes, sine saevitia pro veritate certantes

Não se pense, entretanto, que tudo no cristianismo sejam dogmas: ao lado destes, existem aí também não poucas teses incertas e duvidosas. A intolerância, de que falamos, circunscreve-se aos domínios do dogma; fora daí, há liberdade de pensamento. É o que lapidarmente, como costumava, fixou o mesmo Santo Agostinho neste brocardo, que tão de molde vem ao nosso assunto: "No dogma, unidade; na dúvida, liberdade; em tudo, caridade". In certis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas

Nem será por demais frisar melhor aqui esta liberdade de pensamento, para que se não cuide que, em se tratando de dogmas, desapareça ela, de todo em todo, o que seria falso. Basta, para isso, distinguir na fé o seu ato e o seu objeto. O ato de fé é sempre livre, essencialmente livre, tão livre que sem liberdade não pode existir a fé: ou se crê livremente, ou não se crê. Daqui a estultícia da fábula do "crê ou morre!" O objeto da fé, este sim, é que exclui a livre escolha, não podendo ser outro que a verdade. 


Dom Francisco de Aquino Corrêa, Mensagem aos Homens de Letras (Proferida na Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1937). Em: Discursos, vol. II, tomo II, Brasília, 1985, pp. 176-178.
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