Papa alerta que a IA pode enfraquecer a capacidade de ouvir e pensaR


Leão XIV considera que a inteligência artificial (IA) é um desafio antropológico. “Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios”, escreve o Papa na Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Recordamos aqui um contributo da comunicação sinodal para a preservação de vozes humanas com o músico e sacerdote Duarte Rosado.

Rui Saraiva - Portugal


A Mensagem do Papa para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais com o título “Preservar vozes e rostos humanos” alerta para os riscos da manipulação da inteligência artificial (IA).

O perigo de não se ouvir e pensar criticamente

Leão XIV refere que o atual desafio da IA “não é tecnológico, mas antropológico”. “O desafio, portanto, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios”, escreve o Santo Padre.

Na sua Mensagem, o Papa alerta para o perigo de que a IA e os algoritmos possam enfraquecer a capacidade de ouvir e pensar. Lembra que esta pode aumentar a polarização social ao colocar grupos de pessoas em bolhas de consenso fácil.

“Ao encerrar grupos de pessoas em bolhas de fácil consenso e indignação, estes algoritmos enfraquecem a capacidade de escuta e pensamento crítico, aumentando a polarização social”, declara o Papa.

O Santo Padre adverte que ao deixarmo-nos contentar com os dados e informações da IA, evitando ter pensamento próprio, podemos corroer as nossas capacidades cognitivas.

“Ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas”, salienta Leão XIV.

O Santo Padre apela a uma cidadania digital consciente e responsável que envolva desde a indústria tecnológica até aos legisladores, às empresas criativas, ao mundo académico, aos artistas e aos jornalistas e educadores.

Em particular, o Papa faz um sério alerta para uma atitude “ingénua e acrítica” na utilização da IA que pode prejudicar a “nossa capacidade de pensar analiticamente e criativamente”.

Preservar vozes: o contributo da comunicação sinodal

Precisamente para ajudar a pensar, analisar e refletir em modo crítico, a comunicação sinodal tem vindo a oferecer um registo de escuta e de preservação do contributo de cada pessoa.


Em especial, a Rede Sinodal em Portugal tem vindo a sublinhar com o seu podcast “No coração da esperança”, que o esforço coletivo de encontro e de caminho em conjunto começa na partilha pessoal e crítica. Sem filtros e sem barreiras artificiais. Com total liberdade de participação, preservando vozes e rostos.

Deste conteúdo de comunicação sinodal recordamos o contributo do padre Duarte Rosado, promotor vocacional da Companhia de Jesus em Portugal.

Na entrevista que concedeu em novembro de 2025, o músico e sacerdote jesuíta considera que a arte pode ser um veículo para falar de Deus. Afirma que a experiência de beleza que a arte proporciona, pode ser “uma experiência comunitária e pessoal, de fé e de Deus” que ajuda na conversão das relações.

“Eu não falo só a partir da música. Acho que se fala a partir de um ponto de vista da arte, porque a música é uma das expressões. Eu falo até quase do que está... Quase da base. Parece-me que é neste momento o mais importante. Mais do que o produto final, é mais a atitude que está por detrás da criação artística, ou da arte.

Nós temos alguma dificuldade em habitar a tensão e habitar as perguntas. Temos alguma dificuldade em relação a isto. A tendência é para uma certa segurança, em ter as coisas garantidas, as respostas todas, etc. Eu acho que a vida não funciona assim. E se a vida não funciona assim, a fé não funciona assim, e a Igreja não funciona assim. No tempo em que estamos não funciona assim.

O que é que me parece que a arte faz de uma maneira excecional: Ensinar-nos a habitar as tensões e as perguntas sem ter a pressa de as resolver, ou seja, sem querer resolvê-las à pressa. Porque a arte põe-nos diante do mistério. Sem o querer escangalhar, sem o querer abrir, sem o querer, com um bisturi, dissecá-lo. Mas vivê-lo, viver isso. E põe-nos diante da pergunta, sem a querer responder à pressa. As perguntas vão-se respondendo, vai-se vivendo a resposta, e não se vai respondendo à pergunta como nós estamos habituados à nossa mentalidade, meia técnica, meia eficaz ou eficiente, vai querer responder.

Para além disso, a arte também nos põe diante da beleza, do belo. E a experiência de fé, e a experiência de Igreja, deveria ser, ou é, pelo menos implicitamente, uma experiência do belo. Uma experiência de beleza. Portanto, a arte é como uma porta de entrada. Não estou a dizer que a arte, que experimentar a arte é já a fé. Pode ser para quem é crente. Mas para quem não é pode ser sobretudo uma porta de entrada muito, muito grande.

Na perspetiva sinodal, isto é muito importante. Porque me parece que o Sínodo também poderia encontrar caminhos, obviamente, de habitar a tensão e as perguntas. E é uma coisa que está clara também nos documentos, habitar a tensão, ensinar a habitar a tensão e as perguntas. E, sobretudo, a experiência de beleza poder ser uma experiência comunitária e pessoal, de fé e de Deus. É uma experiência profundamente espiritual que poderia ajudar não só a esta conversão de que se fala das relações, e de uma conversão espiritual também, mas também até uma maneira de transmitir conteúdo através da arte. De poder ser um veículo de falar de Deus. Não como a teologia fala, não como a espiritualidade, por si, a fala. Não como a liturgia fala, mas de uma maneira nova, e a meu ver até pouco explorada, pelo menos em Portugal. Assim ainda pouco explorada a questão da beleza, e de como se pode usar a beleza como veículo, e como porta de entrada e até como veículo de fé”.

Duarte Rosado é sacerdote jesuíta e músico e colaborou com a iniciativa podcast “No coração da esperança” da Rede Sinodal em Portugal, uma parceria que junta Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, 7Margens, Rede Mundial de Oração do Papa e Folha do Domingo.

Continuemos a preservar vozes e rostos humanos para aprendermos a viver com a IA.

Em 2026 o Dia Mundial das Comunicações Sociais celebra-se no domingo 17 de maio.

Laudetur Iesus Christus

FONTE: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-01/dia-comunicacoes-sociais-mensagem-leao-xiv-inteligencia-ia.html

São Carlo Acutis

 

São Carlo Acutis não ficava indiferente

Em uma época marcada pelo desafio de construir relações mais humanas e combater o bullying, a vida de São Carlo Acutis apresenta uma mensagem profundamente atual: ninguém deve ser deixado de lado.


Relatos de pessoas que conviveram com Carlo mostram sua atenção aos colegas que eram deixados de lado. Ele se aproximava daqueles que enfrentavam dificuldades e chegou a defender um colega com deficiência que sofria provocações e bullying. Ele não enxergava aquele colega apenas como alguém que precisava de ajuda. Ele o reconhecia como amigo.

Aqui encontramos uma das grandes lições de sua vida para a Igreja e para a sociedade: inclusão começa quando deixamos de olhar para a deficiência como aquilo que define uma pessoa e passamos a enxergar o ser humano, sua história, seus sentimentos, seus dons e sua dignidade.

Quando percebia que alguém estava sendo humilhado, Carlo não ficava indiferente. Quando via alguém sozinho, aproximava-se. Quando encontrava alguém que precisava de amizade, oferecia amizade.

Uma fé que se transforma em atitude

São Carlo Acutis é conhecido por sua profunda devoção à Eucaristia e por seu desejo de levar outras pessoas a conhecer Jesus. Sua vida espiritual, porém, não o afastava das pessoas. Pelo contrário: quanto mais se aproximava de Cristo, mais se aproximava dos irmãos. Sua fé estava ligada ao serviço e à amizade.

Isso nos ensina algo fundamental: uma Igreja que deseja ser inclusiva precisa formar pessoas capazes de enxergar o outro e agir.

Não basta dizer que todos são bem-vindos. É preciso perguntar: Quem está sozinho? Quem está sofrendo? Quem está sendo deixado de lado? Quem precisa de um amigo?

Carlo nos ensina a não passar indiferentes

Quando falamos da inclusão das pessoas com deficiência, pensamos, com razão, em acessibilidade física: rampas, banheiros adaptados, lugares adequados, recursos de comunicação e outras estruturas necessárias.

Tudo isso é importante, mas São Carlo Acutis nos lembra que existe uma barreira ainda mais profunda: a barreira da indiferença. Uma igreja pode ter acessibilidade arquitetônica e, mesmo assim, alguém pode continuar se sentindo sozinho.

Podemos oferecer estruturas e recursos, mas, se não houver amizade, respeito, escuta e fraternidade, a inclusão permanecerá incompleta.

Carlo nos apresenta um caminho simples e concreto: aproximar-se.

Incluir também é sentar ao lado, conversar, defender quem sofre, convidar para participar, reconhecer os dons do outro e construir amizades verdadeiras.

“Todos nascem como originais”

Uma das frases mais conhecidas de Carlo Acutis afirma: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias.”

Essa frase ilumina profundamente nossa compreensão sobre a inclusão. Cada pessoa é única. Cada pessoa tem uma história. Cada pessoa possui dons que Deus colocou em sua vida. Por isso não podemos reduzir alguém à sua deficiência.

Uma pessoa com deficiência não é apenas alguém que precisa receber. Ela também tem muito a oferecer. Pode evangelizar, servir, rezar, participar das pastorais, desenvolver seus talentos e testemunhar a presença de Deus.

Uma Igreja verdadeiramente inclusiva não pergunta somente: “O que podemos fazer por essa pessoa?” Ela também pergunta: “O que essa pessoa pode oferecer à comunidade?”

Essa mudança de olhar transforma a maneira como acolhemos.

O combate ao bullying começa no coração

O testemunho de Carlo também fala diretamente às famílias, escolas, paróquias e grupos de jovens. O bullying não é uma simples brincadeira. Ele pode ferir profundamente a dignidade de uma pessoa e deixar marcas que permanecem por muitos anos. Carlo percebeu isso e não escolheu o silêncio.

Seu exemplo nos convida a ensinar crianças e jovens a reconhecer a dignidade de cada colega. É preciso formar uma geração que não transforme a diferença em motivo de humilhação e que tenha coragem de defender quem está sendo injustiçado.

O que Carlo pode ensinar às nossas paróquias?

A inclusão começa com um simples gesto: chamar alguém pelo nome, sentar ao seu lado e dizer: “Venha, fique conosco”. Esse gesto aparentemente pequeno pode revelar o rosto de Cristo.

São Carlo Acutis morreu jovem, mas sua vida continua falando especialmente às novas gerações. Ele mostrou que é possível viver a santidade no cotidiano: na escola, entre amigos, na família, na paróquia e junto daqueles que sofrem.

Sua santidade não o afastou do mundo. Fez com que ele olhasse para o mundo com os olhos de Cristo, e nos recorda que a inclusão começa pelo coração.

  • Antes de construir uma rampa, precisamos construir pontes.
  • Antes de criar uma pastoral, precisamos criar vínculos.
  • Antes de falar sobre inclusão, precisamos aprender a amar.

Talvez essa seja uma das maiores lições que São Carlo Acutis deixa para nós: quando encontramos Jesus, não conseguimos permanecer indiferentes diante daquele que sofre.

Que nossas paróquias sejam lugares onde ninguém seja motivo de riso, ninguém seja deixado para trás e ninguém precise perguntar se existe lugar para ele.

Porque, onde Cristo está, sempre existe lugar para mais um.

FONTE: https://formacao.cancaonova.com/igreja/sao-carlo-acutis-um-santo-que-nos-ensina-incluir/