quinta-feira, 2 de junho de 2011

Grupos de Oração e Comunidades Ministeriadas


Grupos de Oração e Comunidades Ministeriadas


A evangelização supõe uma ação continuada que possibilite ao fiel evangelizado, um caminhar na experiência de Deus, uma perseverança, uma formação, um crescimento dentro da espiritualidade e maneira de “ser Igreja” escolhido por ele. Este caminhar só é possível em uma comunidade.
O ser comunidade é uma aspiração natural e própria daquele que descobriu Deus como Pai por Jesus Cristo e Dele recebeu o Espírito Santo que nos torna todos irmãos. A aspiração à vivência fraternal e solidária é da própria fé, e temos caminhar até realizar o ideal evangélico de não possuir nenhum necessitado entre nós.
Os cristãos anseiam por comunidades, se não no começo de sua trajetória eclesial, pelo menos na medida em que avançam. Quando descobrem ou redescobrem uma nova maneira de viver a fé evangélica e a pertença eclesial sentem muito claramente que a missa dominical não basta para alimentar sua fé. Eles sentem necessidade também de falar com outras pessoas acerca do que fazem e do que crêem, e que, aliás, descobriram graças aos meios que a Igreja lhes propiciou. Estariam eles como que impedidos de prosseguir numa perspectiva comunitária simplesmente porque isso é mais difícil ou menos habitual na Igreja de todos os dias? Precisamos refletir sobre o que poderia ser uma experiência normal de comunidade para cristãos comuns que o Espírito convoca para viver em Igreja. O Grupo de Oração da Renovação Carismática oferece uma oportunidade privilegiada para realizar esta experiência.(1)
“O grupo de oração não é um fim em si. Antes estimula a formação de comunidades cristãs e constitui um dos meios a disposição dos fiéis para realizá-la em sua família, paróquia e ambientes de vida e de trabalho”.(2)
É desejo de Deus que a comunhão entre os cristãos seja testemunho visível de Seu amor para com os homens, concretizado na morte e ressurreição de Jesus (cf. Jo 17,21). Os primeiros cristãos, com efeito, o compreenderam assim. Depois de terem, no dia de Pentecostes, recebido o Espírito Santo, continuavam fiéis à vida comunitária, à fração do pão e nas orações. (cf Atos 2,42-46.)
Não deixa de ser surpreendente que São Paulo ligue sua exposição sobre os carismas com a sua doutrina em que a união entre os cristãos fica formulada em função do pertencer ao único Corpo Místico de Cristo (1Cor 12, 12-27). Os carismas são dados e praticados para levar o único Corpo de todos os cristãos a maior crescimento, comunhão e fraternidade.
Os abundantes frutos da experiência do Espírito serão possíveis na medida em que caminharmos para um cristianismo vivido em conjunto. Ela (a experiência do Espírito) não tem nada de uma experiência religiosa isolada, pelo contrário, liberta forças, pelas quais os cristãos passam a construir uma comunidade.
Para que a experiência pentecostal tenha efeitos duradouros, é necessário mais do que os aspectos subjetivos da experiência de Deus, que chamamos de batismo no Espírito Santo. São absolutamente indispensáveis estas três coisas: 1 - Liderança autêntica e comprometida; 2 - comunidades cristãs em que homens (e mulheres) que desejam viver no Espírito possam apoiar-se e confirmarem-se uns aos outros; 3 - ministérios organizados que promovam o crescimento de toda comunidade e realizem a Missão.
“O Grupo de Oração constitui um ambiente de liberdade, de confiança e de partilha mútuas, no seio do qual as relações interpessoais podem alcançar um nível profundo de comunhão, graças a uma abertura comum ao Espírito de Amor. De grande importância para a dinâmica destes é o fato de todos participarem amplamente na vida total da comunidade. Cada um dos membros é chamado a contribuir para a vida de oração e edificação da comunidade, assim como para certas formas de serviço ou de ministério no grupo. Isso tende a fazer do Grupo uma comunidade de intensa participação”.(3)
E interessante notar que “os primeiros” indicam um caminho comunitário para os Grupos de Oração. Penso que a permanência da RCC como experiência continuada do Espírito, expressão da “pentecostalidade da Igreja” (P. Joãozinho) passa necessariamente pelas comunidades de renovação, originadas no “Grupos de Oração” e organizadas a partir dos ministérios, que têm suas raízes nos carismas e assim oferecendo um “espaço de vida fraternal e solidária”, resposta para o mundo, desafio para a Igreja.
O batismo no Espírito Santo dos que crêem na morte salvífica e na ressurreição de Cristo tem por finalidade, não somente a de reconciliar Deus com o homem, mas também de reconciliar os homens entre si. Esta reconciliação não modifica somente o coração dos homens, tornando-os dispostos a perdoar, a exemplo do coração de Jesus, senão cria também uma nova forma de sociedade: a comunidade cristã.
As reuniões do Grupo de Oração não podem ser fim delas mesmas, devem produzir um novo relacionamento, uma fraternidade efetiva entre os participantes. É preciso incentivar outros encontros com a finalidade de promover este sentimento fraternal e de pertença que caracterizam uma comunidade.
Estes “segundos encontros” têm um tríplice objetivo: criar unidade, fazer os participantes (membros) progredirem até a maturidade cristã, e incentivar a dedicação e o relacionamento pessoal. Aqui encontramos a oportunidade impar para o exercício de vários ministérios, do atendimento e aconselhamento (Ministério de Oração pela Cura e Libertação) até o serviço de promoção humana e assistência social (Ministério de Promoção Humana)
“Ministério é, antes de tudo, um carisma, ou seja, um dom do Alto, do Pai, pelo Filho, no Espírito, que torna seu portador apto a desempenhar determinadas atividades, serviços e ministérios, em ordem à salvação”(4) . A partir desta consideração, na RCC e, portanto no Grupo de Oração, quando o exercício de um (ou de vários) carisma necessita de um serviço continuado, “organiza-se” um ministério.
“Entendendo-se aqui, por ‘organizar-se’, o estabelecimento de certas ‘normas’ de conduta, a eleição de certos conteúdos de formação que os membros daquele específico ministério deveriam conhecer para exercitar seu serviço adequadamente, o estabelecimento de uma ‘coordenação’ que pudesse articular e direcionar os membros de tal ministério, e assim por diante”.(5)
Esta “ministerialização” dos Grupos de Oração, como caminho para a comunidade, passa pela mudança de mentalidade em relação aos próprios Grupos de Oração, transformando-os em grupos efetivamente participativos. De um Grupo “assistente” para um Grupo “participante”.
Os ministérios são suscitados pelo Senhor Jesus para levar o cristão ao estado de adultos na medida e estatura do próprio Cristo. Devemos buscar a maturidade e sair da infância.
Considerando o “Grupo de Oração”, nota-se que os modelos adotados para as Reuniões de Oração, dificultam uma contribuição efetiva de seus participantes e o exercício dos carismas.

Grupos de Oração, uma análise atual.
É muito comum queixar-se de uma “Igreja anônima”(6), imensa, porque o cristão não tem a oportunidade de vivenciar, mais do que uma vez por semana, uma experiência comunitária que permita perceber o que é partilhar a vida de fé, ou que brota da fé. Esta queixa do anonimato atinge também nossos Grupos de Oração, onde o fiel não identificado, pouco participa, somente “reage” a motivação da “animação”, mas não partilha sua vida e não se dá a conhecer.
O “Grupo de Oração (é) o lugar de realização da identidade da Renovação, da missão, da comunhão eclesial, e da vivência da fraternidade”(7), e principal visibilidade da RCC na Igreja, espera-se que neles brotem “verdadeiras expressões de comunidade, como um modo de vida que coloca seus participantes sempre mais disponíveis para a obra de Deus, a serviço do outro.”(8)
Este ideal de comunidade como “um modo de vida” ainda não é tão presente, notando-se a falta de conhecimento e relacionamento fraterno entre os participantes dos Grupos de Oração e, algumas vezes, mesmo entre os membros dos Núcleos de Serviço.
Sem este elemento de fraternidade e comunhão os Grupos de Oração correm o risco de se tornarem uma prática devocional, ou ainda uma fuga “emocional” do cotidiano, não realizando a “experiência de Pentecostes” já que “não basta alimentar o bem no coração, mas é preciso praticá-lo de fato. Essa práxis se dá, realmente, no relacionamento interpessoal, no auto-posicionamento comunitário, na sociedade em que se vive o que se nutre no coração.”(9)
Os carismas são dados em “vista do bem de todos” (1Cor 12,7), são para a edificação da comunidade cristã(10), portanto nos Grupos de Oração os carismas serão “autênticos” se construírem a comunidade cristã. Daí se as manifestações dos carismas não construírem comunidades correm o risco de se tornarem apenas “espetáculos carismáticos”. Para isso concorre, atualmente, em alguns casos, o grande desenvolvimento do “ministério de música”, do “ministério de animação” e dos “grupos de cura e libertação”, que tende a “monopolizar” a atividade do Grupo – Reunião de Oração, gerando “emocionalismo e sensacionalismo” que podem substituir a verdadeira experiência do Espírito, ou ainda, um intimismo que favorece o individualismo, dificultando a identificação de si e do outros, a dimensão da alteridade e da comunidade.
A crítica que se faz a uma liturgia “por demais óbvia e repetitiva”(11), que impossibilita a liberdade de expressão e a vivência da comunidade, pode ser estendida às Reuniões de Oração, em alguns casos, já que existe quase que uma “seqüência liturgica” a ser seguida.
A rotatividade em alguns Grupos de Oração denuncia a falta de perspectiva de engajamento nas atividades do movimento e, ou, a dificuldade de participar dos núcleos de liderança, por uma burocracia excessiva. Pode significar também o esgotamento da “experiência emocional” que se faz no Grupo de Oração, que não gerou convicções e relacionamentos capazes de sustentar uma vida cristã adulta e madura. “A experiência oferecida deve ir além da ‘comunidade emocional’, que satisfaz os sentimentos, mas que não chega a uma experiência autêntica da fé e do compromisso”.(12)
Os Grupos de Oração “não sendo fechados em si mesmos e não sendo um fim em si mesmo, buscam construir uma comunidade adulta de cristãos”.• Para tanto se faz necessário dar um passo além dos Grupos de Oração. É próprio da experiência do Espírito da descoberta do outro, e a partir desta descoberta a “partilha dos dons, para que se chegue a partilha dos bens”.
Tácito José Andrade Coutinho (Tatá)
Coordenador do Grupo de Reflexão Teológica* da RCC-Brasil
(*) O grupo de Reflexão Teológica, juntamente com o Conselho Editorial e os Coordenadores Nacionais dos Ministérios na RCC, compõem a Comissão de Formação da RCC-Brasil.



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