quarta-feira, 2 de março de 2011

Escultura de Cristo, que faz menção à religiosidade de Roberto Carlos, estará na última alegoria da Beija-Flor Publicada em 26/02/2011


RIO - Vinte e dois anos depois de a Beija-Flor causar comoção na Marquês de Sapucaí com um Cristo mendigo coberto por um plástico preto e a faixa "Mesmo proibido olhai por nós", a escola de Nilópolis traz de volta o personagem. Mas, agora, sob as bênçãos da Arquidiocese do Rio. O Cristo retornará ao Sambódromo no último carro da escola, o mesmo que levará Roberto Carlos, tema do enredo "A simplicidade de um rei". A imagem, de dez metros de altura, é rodeada por anjos e figuras que lembram a Virgem Maria.
O carro do Rei se estenderá por 60 metros. O único destaque será o próprio homenageado, que desfilará num platô de quatro metros de altura, à frente do Cristo, tendo ao redor 300 crianças. A citação não é gratuita. A alegoria, chamada "A religiosidade do Rei", faz referência à canção "Jesus Cristo" (de Roberto e Erasmo), um de seus maiores sucessos. Desta vez, a escola se cercou de cuidados para não desagradar à Igreja, que acompanhou a confecção do carro.
- Já tive acesso à alegoria. Não há nada demais. Não é o Cristo, é um ser de luz. Trata-se de uma representação, sem a caracterização do objeto de culto. Não passou pela nossa cabeça impedir (de desfilar) - explica a advogada Claudine Dutra, coordenadora jurídica da Arquidiocese do Rio .
Laíla: alegoria representa importância da fé
Claudine afirma que o arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, entende que o sentimento religioso está presente na cultura brasileira. E que a preocupação da Igreja tem sido a de impedir que objetos de culto sejam vilipendiados. Ela diz ainda que os direitos autorais do Cristo Redentor pertencem à Arquidiocese:
- Não pretendemos cobrar. Queremos apenas proteger.
Laíla, diretor de carnaval da azul e branco, confirma. Ele mesmo ciceroneou a advogada na visita ao barracão:
- Expliquei a ela que a alegoria representa um ser de luz, numa referência à importância da fé de Roberto Carlos.
O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), Jorge Castanheira, também descarta qualquer controvérsia em relação à imagem:
- Não é permitido vilipendiar imagens religiosas, só isso - resume, citando o regulamento do desfile. - Está todo mundo rezando pela mesma cartilha.
Diferentemente de seus antecessores, dom Orani tem dialogado com os sambistas. Em janeiro do ano passado, fez uma inédita visita à Cidade do Samba, onde foi recebido por Castanheira. Depois de rezar junto com os representantes das escolas, pediu que os sambistas valorizassem a cultura brasileira. No mês passado, a Cidade do Samba foi incluída no roteiro da imagem peregrina de São Sebastião.
Se dom Orani ficou mais próximo do samba, o samba também ficou mais perto de dom Orani. No carnaval passado, depois da visita do arcebispo aos barracões, a Portela desistiu de levar para o Sambódromo uma escultura do Cristo Redentor em seu carro abre-alas. O presidente da escola, Nilo Figueiredo, justificou a decisão pelo fato de o regulamento do desfile proibir o uso de símbolos religiosos.
O assunto sempre provocou atritos entre as escolas de samba e a Arquidiocese. O episódio mais conhecido aconteceu em 1989, quando a Beija-Flor pôs em seu abre-alas um Cristo mendigo, parte do enredo "Ratos e urubus, larguem a minha fantasia", de Joãosinho Trinta. A Igreja conseguiu impedir, na Justiça, que a escola mostrasse a alegoria. A decisão atingiu também a Tradição, que pretendia levar para a avenida uma imagem de São Sebastião.
A Beija-Flor chegou a levar o Cristo para a Sapucaí. Mas, devido à presença de um oficial de Justiça, teve de cobrir a alegoria com um plástico preto. Com seus mendigos e esfarrapados, guiados por um Cristo proibido, a Beija-Flor fez um desfile arrasador. Não levou o título (perdeu para a Imperatriz Leopoldinense), mas entrou para a história do carnaval.
Apesar dos protestos dos sambistas de Nilópolis, o veto à alegoria se manteve no desfile das campeãs. Mais uma vez, o Cristo passou coberto pelo Sambódromo. Dias depois, ao comentar a apresentação da Beija-Flor, o próprio juiz Carlos Davidson Ferrari, que concedeu a liminar à Igreja vetando a imagem, declarou:
- Vi o desfile da Beija-Flor pela TV e achei belíssimo. Foi uma injustiça não ter sido campeã.

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