segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Querida Mamãe,Estou escrevendo para a senhora de uma cama de hospital. Não se preocupe, mãe, eu estou bem. Eu fui ferido, mas o médico me disse que eu terei alta em breve.
"A senhora se lembra daquela oração a São Miguel que a senhora me ensinou a rezar quando eu ainda era pequeno: "Miguel, Miguel do amanhecer,..." Antes que eu viesse para a Coréia, a senhora insistiu para que eu me lembrasse dessa oração antes de qualquer confronto com o inimigo."
Mas não é isso que eu tenho a contar para a senhora, mãe. Algo aconteceu comigo que eu não ouso contar a ninguém mais por medo de que não acreditem. Mas eu tenho que contar à senhora, a única pessoa em quem posso confiar, apesar de que mesmo a senhora pode achar difícil de acreditar.A senhora se lembra daquela oração a São Miguel que a senhora me ensinou a rezar quando eu ainda era pequeno: "Miguel, Miguel do amanhecer,..." Antes que eu viesse para a Coréia, a senhora insistiu para que eu me lembrasse dessa oração antes de qualquer confronto com o inimigo. Mas a senhora na verdade nem precisava me lembrar, mãe. Eu a tenho sempre rezado, e após minha chegada na Coréia, eu a tenho recitado várias vezes por dia, enquanto estou marchando ou mesmo descansando.
Bem, um dia, recebemos a ordem de sair para procurar uns comunistas. Era um dia realmente frio. Enquanto eu estava andando, eu percebi um companheiro andando ao meu lado, e eu olhei para ver quem era.

 
Ele era um sujeito grande, um fuzileiro de mais de 1,80m, fisicamente bem constituído. Engraçado, mas eu não o conhecia, e eu achava que conhecia todos da minha unidade. Eu fiquei feliz por ter companhia e quebrei o silêncio entre nós:
"Frio hoje, não é?" Então, comecei a sorrir comigo mesmo porque eu percebi que era um tanto absurdo falar sobre o clima quando estávamos avançando para o inimigo. Ele também deu um leve sorriso.
"Eu pensei que eu conhecia todo mundo da minha unidade," eu continuei, "mas eu nunca te vi antes."
"Não," ele concordou, "Eu acabei de me juntar ao grupo. Meu nome é Miguel."
"Verdade?! É o meu também!"
"Eu sei," o fuzileiro disse, "Miguel, Miguel do amanhecer..."
Mãe, eu fiquei realmente surpreso de como ele sabia sobre minha oração, mas eu a havia ensinado para muitos dos outros colegas, então eu pensei que aquele novato devia ter ouvido de alguém. De fato, a coisa se espalhou tanto que alguns dos meus companheiros estavam me chamando de "São Miguel".
Então, do nada, Miguel disse, "Vamos ter problemas aí em frente."
Eu fiquei pensando como eu poderia saber isso.
Eu estava respirando com força por causa da marcha acelerada, e minha respiração aparecia no ar frio quase como um denso nevoeiro. Miguel parecia estar em ótima forma porque eu não podia ver quase nada da respiração dele. Logo começou a nevar com força, ficando a neve tão densa que eu não podia ver nem ouvir o resto da minha unidade. Eu fiquei com um pouco de medo e disse, "Miguel!" Então, eu senti sua mão sobre meu ombro e ouvi sua voz no meu ouvido, "Logo a neve vai passar."
E foi o que aconteceu logo depois.
Então, a pouca distância à nossa frente, como uma dessas terríveis realidades, estavam sete comunistas, parecendo até um tanto cômicos por causa dos chapéus engraçados que tinham. Mas não havia nada de engraçado com eles naquele momento; suas armas estavam firmes e apontadas diretamente na nossa direção.
"Abaixe-se, Miguel!!!" Eu gritei enquanto me jogava no chão para me buscar cobertura.
Eu já estava no chão quando olhei para cima e vi Miguel ainda de pé, como se estivesse paralisado pelo medo. Foi o que eu pensei na hora. Balas estavam voando para todos os lados, e mãe, não havia como aqueles comunistas errarem daquela pequena distância. Eu pulei para puxá-lo para baixo, então fui atingido. A dor foi como um fogo quente no meu peito, e à medida que eu caía, minha cabeça rodou e eu me lembro de ter pensado comigo mesmo, "Eu devo estar morrendo..."
Alguém estava por cima de mim, me cobrindo, fortes braços estavam me segurando e me protegendo gentilmente por entre a neve. Naquele atordoamento, eu abri os olhos, e o sol pareceu brilhar nos meus olhos. Miguel estava de pé, havia um terrível esplendor no seu rosto. De repente, ele pareceu crescer, como o sol, o esplendor crescia intensamente em volta dele como as asas de um anjo. Eu estava quase ficando inconsciente quando vi que Miguel segurava uma espada na mão. Ela brilhava com a força de um milhão de luzes.
Mais tarde, quando eu voltei a mim, o resto dos meus colegas veio me ver juntamente com o sargento.
"Como você fez isso, rapaz?" ele me perguntou.
"Onde está o Miguel?" Eu perguntei.
"Miguel quem?" O sargento parecia perplexo.
"Miguel, o fuzileiro grande que estava andando comigo, até a última hora. Eu o vi quando fui atingido."
"Rapaz," o sargento disse em tom sério, "você é o único Miguel na minha unidade. Eu pessoalmente selecionei vocês todos, e só há um Miguel: você. E rapaz, você não estava andando com ninguém. Eu vim atrás de você porque você estava muito longe de nós, eu estava preocupado.

 
"Agora me diga, rapaz," ele repetiu, "como você fez isso?"
Era a segunda vez que ele me perguntava aquilo e eu já estava achando irritante.
"Como que eu fiz o quê?"
"Como que você matou aqueles sete comunistas? Você não atirou sequer uma vez com seu rifle."
"O quê?"
"Vamos lá, rapaz. Eles estão todos espalhados à sua volta, cada um morto por um golpe de espada."
E esse, mãe, é o fim da minha história. Pode ter sido a dor, ou o brilho do sol, ou o frio congelante. Eu não sei, mãe, mas algo que eu tenho certeza. Isso aconteceu.
Com amor, seu filho,
Miguel.